Gaules: “Chegou a hora de trazer a medalha”
Faltando menos de uma semana para o início da Final Mundial da World Cyber Games 2011, na Coreia do Sul, o site do MIBR conversou com Alexandre “Gaules” Borba, manager do time Mandic, que vai representar o Brasil na competição.
Sobre a derrota para o GamerHouse na Mega Acervus Cup, Gaules explicou os motivos pelos quais, na opinião dele, não existe mais time imbatível. “Infelizmente, para mim, o nível do CS nacional está nivelado por baixo. Os times treinam com os mesmos times sempre. Não existe muitas novidades, desafios e trocas de experiência” – afirmou.
Segundo ele, o vice-campeonato não atrapalha a confiança da equipe para a WCG. “Nosso grupo tem tradição em jogar grandes competições. É lá que acontecem as coisas, que se faz história e que se vira lenda. Tenho a certeza do brilho de cada um e que mais uma vez vão conseguir fazer bonito”.
Gaules ainda falou sobre sua ausência na Final Mundial. No dia 1º de dezembro, o site do MIBR revelou, com exclusividade, que a verba para cobrir os gastos do coach não foi liberada pela Mandic, e que por isso ele não poderia acompanhar o time na Coreia do Sul. “Com minha presença ou não, são capazes de brilhar contra qualquer time do planeta”.
Leia a entrevista completa, abaixo:
Primeiro falando da WCG Brasil: como você trabalhou o emocional da equipe para que conquistassem o título sobre o único time que havia conseguindo derrotar vocês?
Acho que tudo faz parte de um trabalho que já vem de muito tempo. Vários dos jogadores do Mandic já tinham trabalhado comigo na época de g3x e mibr. No ano passado, também tive o prazer de acompanhar de perto esse mesmo time durante as finais da WCG Brasil e Pan e na Final Mundial em Los Angeles. Sei exatamente do potencial desta formação e sei que são altamente explosivos. Muitos deles são estrelas internacionais, com fãs no mundo inteiro e que já conquistaram os títulos mais importantes da história do país. Tudo isso pesa na hora de disputar um campeonato da importância da WCG Brasil e Panamericano, que atualmente são os campeonatos mais importantes que temos na América do Sul. Ao longo dos anos, foram basicamente os mesmos poucos que conseguiram esse título, é um campeonato de muita tradição e sei que cada um deles tinha a certeza absoluta de que em momento algum iríamos deixar escapar um título como este. Derrotas e tropeços fazem parte da vida de qualquer esportista ou time profissional e ser grande ou não depende de como você encara esses tropeços. No caso da WCG, serviu para ficar ainda mais forte e botar na prateleira mais um troféu tradicional.
O Mandic chegou na Mega Acervus como principal candidato ao título, mas acabou novamente derrotado pelo GamerHouse na Final Upper. Por que o time não conseguiu reverter essa desvantagem na Grande Final?
Durante o campeonato quase tropeçamos várias vezes, tivemos jogos em que estávamos com grande desvantagem e acabávamos conseguindo reverter o placar. Infelizmente, como eu tinha alertado para eles, não somos a prova de bala e uma hora podemos ser surpreendidos por algum outro time bom. Sinceramente, a época em que existia times com 100% de garantia de vitória acabou no cenário nacional. Faz alguns bons anos que um time não vai pra fora treinar, se aprimorar e melhorar seu grupo a ponto de ser imbatível. Infelizmente, para mim, o nível do CS nacional está nivelado por baixo. Os times treinam com os mesmos times sempre. Não existe muitas novidades, desafios e trocas de experiência. Hoje todos correm com o mesmo carro, treinam na mesma pista e por aí vai… Já houve épocas em que um time era imbatível no Brasil devido a estrutura de treinamento que tinham, viagens para poder se preparar e principalmente trocar experiência com os melhores times do planeta. Ir para um campeonato internacional jogar alguns mapas contra eles não ajuda em nada. O que faz um time ser grande é sua preparação, sua estrutura e principalmente a dedicação dos jogadores, mas, infelizmente, correr de Cart contra carros de Fórmula 1 chega a ser covardia. Mais uma vez afirmo que se um time brasileiro conseguir ganhar algum campeonato lá fora com a atual estrutura de preparação, seria uma zebra gigante! Qualquer esporte é uma soma de muitas coisas para se atingir o topo, não existem atalhos, não existe mágica, o que existe é preparação, dedicação e principalmente estrutura.
Na Grande Final, o Mandic perdeu por expressivos 16-02 justamente no mapa que vocês haviam perdido na WCG. Você ainda sustenta a posição de outras entrevistas de que a nuke não é o pior mapa de vocês?
Claro que sustento. Counter-Strike é um jogo que prega muitas peças às vezes… Já vi muita coisa acontecer, muitas zebras e vitórias incríveis. Já vi um round mudar a história do jogo inteiro, uma jogada individual e por aí vai. Infelizmente, naquele dia não aconteceu, e a derrota veio. Creio que é aí que mora toda a magia e encanto que existe em torno do jogo que já tem mais de dez anos e continua sendo amado por milhares de pessoas. Se jogássemos mais uma vez nuke logo após aquela derrota, a história poderia ter sido outra… ou não. Nunca vamos saber, mas com certeza estaremos no próximo campeonato para descobrir! Uma coisa que prezo e que tenho a certeza de que temos muito êxito é que ali existem cinco guerreiros, jamais vamos fugir de alguma batalha. Nascemos com isso no sangue e é o que amamos fazer. Podem ter certeza que onde existir uma boa batalha, estaremos lá, bem a frente do batalhão!
Até que ponto essa derrota na Acervus atrapalha a preparação e a confiança de vocês para a WCG?
WCG é WCG, é outro campeonato. Como falei, nosso grupo tem tradição em jogar grandes competições. É lá que acontecem as coisas, que se faz história e que se vira lenda. Tenho a certeza do brilho de cada um e que mais uma vez vão conseguir fazer bonito. Fiquei extremamente orgulhoso no ano passado, quando chegaram na Semifinal Upper e disputaram o 3º/4º lugar. Poucas vezes na vida temos a oportunidade de uma segunda chance e confio bastante que eles vão aproveitar esta oportunidade e conseguir trazer a tão sonhada medalha da World Cyber Games para o Brasil. A WCG é um campeonato amargo para nós… sempre acontece muita coisa ruim e nunca conseguimos atingir o objetivo, que é a medalha. Acredito que chegou a hora, cada um deles sabe do potencial do time e de cada jogador que faz parte dele. Mais uma vez chegou a hora dessa garotada fazer história e nos encher de orgulho.
O Mandic caiu no Grupo C, ao lado de times inexpressivos no cenário internacional. O que você espera dessas partidas?
Espero passar o trator em cima deles. É uma boa oportunidade para conhecer as máquinas, os monitores, o espaço de jogo e principalmente o fuso horário. Infelizmente, a delegação brasileira está viajando um pouco em cima da hora. Eles terão cerca de 24 horas para fazer essa ambientação. Espero que esses dois jogos possam ser a preparação necessária para deslanchar na competição.
Se comparado com anos anteriores, o nível desta WCG está mais baixo. Times com Natus Vincere e fnatic não vão participar. Nesse contexto, você acha que o Mandic tem chances de ser o primeiro time brasileiro a conquistar uma medalha de WCG?
Isso depende do ponto de vista. Natus Vincere e fnatic já participaram da WCG e infelizmente, ou felizmente, não foram competentes para conseguir se classificar no seu país. Assim como uma seleção que joga as eliminatórias para a Copa do Mundo e não se classifica, o culpado não é a organização ou muito menos os outros times que jogaram os classificatórios e conseguiram as suas vagas. Acho uma pena não ter times da Alemanha, Noruega e Finlândia, que sempre são ótimos adversários, mas sobre fnatic e Na’Vi, é aquilo… tiveram suas chances e não souberam ou não conseguiram aproveitar. De alguma forma os dois já participaram e ambos foram eliminados dessa WCG.
Você assistiu atentamente à DreamHack Winter, que teve a participação dos melhores times do mundo, alguns deles que vão disputar a WCG. Você anotou as táticas deles? O que você pôde observar?
Claro que anotei, assisti a maioria dos jogos, gostei muito do estilo do Electronic Sahara, acho que tiveram um pouco de azar em alguns rounds e não souberam controlar o time, mas com certeza podem ser um adversário perigoso. Tirando eles, é claro que AGAIN e SK são os times a serem batidos. E agora o SK com certeza vem ainda mais forte. Para mim, continuam sendo o melhor time de 2011 e não vão querer deixar escapar a chance de provar isso mais uma vez. Nunca se pode menosprezar uma fera como eles… ainda mais machucada! Quem menosprezar com certeza pagará muito caro por isto.
Na sua opinião, qual o adversário mais difícil que o Mandic poderia enfrentar?
São os dois: SK e AGAIN. Provavelmente, se tudo for dando certo para os times, devemos pegar o SK na Semifinal e tenho certeza que será uma bela partida. Acredito que o campeão da WCG sairá dela.
Você acha que o fato de você não poder ir para a WCG afeta de alguma forma a equipe? Na sua opinião, qual sua importância para o time?
Afetar é claro que afeta, até porque não só para o Mandic, como para qualquer outro time, ter uma pessoa a mais é sempre um ponto positivo. Muitas vezes os jogadores não conseguem se concentrar 100% na partida e ao mesmo tempo fazer uma boa leitura sobre o que esta acontecendo nela. Jogar em equipe é muito complicado. Eu imagino que, se na época em que eu jogava esses torneios, houvesse um “gaules” ao meu lado, ajudando a enxergar coisas que são praticamente impossíveis quando se está no calor do jogo e prestando atenção na sua tela e na de mais quatro jogadores, eu ficaria muito feliz. Se a regra do campeonato permite a presença do “coach”, será sempre uma desvantagem não ter a presença de um.
Você se preparou tanto, anotou táticas, observou os possíveis adversários. Como você pretende passar tudo que você viu para os jogadores e principalmente para o capitão?
Infelizmente, ainda não sei se conseguirão ter um notebook durante a competição, já que atualmente eles estão utilizando computadores para treinar. Mas irei passar um arquivo de Excel que eu tenho com todas as táticas que os possíveis adversários deles utilizaram nos últimos campeonatos. E aí é torcer para eles conseguirem jogar bem e lembrar das movimentações que os adversários irão utilizar.
O bit disse ao site do MIBR que vocês vão se comunicar diariamente. Sobre o que exatamente serão essas conversas, questão motivacional, parte tática?
É difícil conseguir motivar um grupo como o deles de longe. Eles sabem o quanto estarei na torcida e o quanto estamos batalhando para trazer esta medalha. Não existe nada que eu diga para eles que vai criar ou fazer surgir uma vontade de ganhar que já não exista em cada um deles. Tenho certeza que chegando lá e começando os primeiros jogos, eles vão se inflamar e gritar até a voz sumir. Do Brasil, provavelmente, conseguirei dar alguns toques na parte tática e principalmente tentar alertar os movimentos e táticas dos outros times, já que poderei assistir as partidas com mais calma do HLTV. Mas o mais importante de tudo estará lá: este grupo é maravilhoso e com minha presença ou não, são capazes de brilhar contra qualquer time do planeta.
O que você pode dizer para os fãs brasileiros que acordarão de madrugada para torcer pelo Mandic?
Queria agradecer a todos eles pelo apoio que estamos recebendo, tenham a certeza de que estamos trabalhando muito para mais uma vez representar nosso país com muita honra. Chegou a hora de trazer a medalha e com certeza será imperdível acompanhar esse time em mais um campeonato mágico que é a World Cyber Games! Conto com a torcida de todos e queria agradecer também a todos patrocinadores do time, que têm feito muito por estes garotos: Mandic, 3D Virtua e Razer.



